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EDGAR MORIN: 100 ANOS DE COMPLEXIDADE

  • mdoporto
  • 18 de jul. de 2021
  • 3 min de leitura

Edgar Morin, pseudônimo que o judeu sefardita Edgar Nahoum adotou quando atuava na Resistência Francesa, ao tempo da 2ª Guerra Mundial, completa neste dia 8 cem anos de vida em plena atividade e produtividade. Teórico engajadíssimo no seu tempo, nunca se calou diante dos fatos, mesmo quando suas ideias desagradam uma parcela da sociedade, como aconteceu quando criticou veementemente a intervenção de Israel na Palestina, por exemplo no livro O Mundo Moderno e a Questão Palestina.

Um dos maiores pensadores do século XX e deste começo do século XXI, notabilizou-se por seus escritos sobre o pensamento complexo, cuja hipótese básica é que estamos sob a dominância de uma racionalidade científica que vem deslizando, desde os fins do século 19 e cada vez mais no século 20, para uma racionalização do mundo e das relações sociais.

Entretanto, devido mesmo ao próprio desenvolvimento científico, sob a influência das ciências de ponta - física (astro e micro), matemática, biologia e química - encaminha para uma comunicação e elaboração transdisciplinar oposta ao isolamento disciplinar anterior. Tais ciências, em especial a física e a mecânica quântica, vêm mostrando que só conhecemos do real o que nele introduzimos, ou seja, a nossa própria intervenção nele. Assim, a pessoa, enquanto autor e sujeito do mundo, está no centro do conhecimento e a natureza no centro da pessoa. E nisto só é possível penetrar pela utilização daquilo que Morin denomina um pensamento complexo, exigência social e política vital neste século, pela consciência de que o pensamento engana-se, conduz a ações mutilantes, não porque não tem informação suficiente, mas porque não é capaz de ordenar as informações e os saberes. Ou seja, à despolarização que vem ocorrendo nas sociedades modernas entre imaginação e razão, sentimento e intelecto, sempre em detrimento do primeiro elemento do par, Morin pretende uma sutura epistemológica entre esses pares que se apresentam como opostos, e entre o ser humano e o mundo, o Eu e o Outro...

Nesse sentido é que ele coloca a necessidade da transdisciplinaridade, a única via possível para estudar a complexidade entre os componentes que constituem o todo, como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico, que são inseparáveis e interdependentes.

Talvez a área que mais atrai Edgar Morin seja a da comunicação. Desde seus primeiros escritos, na década de 60, já se voltava para a cultura de massas e o cinema, como nos livros O Cinema ou O Homem Imaginário, e Cultura de Massas no Século XX. Mas foi por obras como Sociologie, O Paradigma Perdido: a Natureza Humana e os seis Métodos que se notabilizou como crítico da ciência monodisciplinar e fragmentada.

Para a educação e o ensino, contribuiu com obras como Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, no qual critica o fato de não haver nem nas escolas nem nas universidades um ensino sobre o próprio saber, sobre o conhecimento do conhecimento. E em A Cabeça Bem-Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento propõe a necessidade de um currículo transdisciplinar.

Recentemente, em palestras no Brasil patrocinadas pelo SESC, como não poderia deixar de ser, Morin mostrou-se preocupado com o que se desvenda para o futuro, em relação às consequências da pandemia do Covid-19. Relembrou-nos que a crise da humanidade está em que ela não consegue se construir como tal devido ao excesso de individualismo. Nesses tempos, então, existe uma incerteza extraordinária sobre o futuro, mas é imprescindível que sentimentos como de solidariedade e fraternidade consigam diminuir esse distanciamento entre as pessoas. É essa expectativa que Edgar Morin nos passa em seus escritos e falas: a possibilidade de um mundo complexo e plural. E qual nosso papel nele...

Em comemoração ao seu centésimo aniversário, Morin está lançando o livro Leçons d’un Siècle de Vie. Esperemos para conhecer quais são.


Artigo publicado no Internet Jornal nº 109, de 18/07/2021

 
 
 

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