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Pessoas gostam de morar na rua?

Pessoas não gostam de morar na rua

Calu Malavazzi - Médica


Faz algum tempo que vejo nas redes sociais de Itapetininga discussões sobre as praças estarem sujas e sobre as pessoas em situação de rua estarem no centro da cidade. Trabalho como médica de população em situação de extrema vulnerabilidade há mais de 10 anos. Nessas pessoas, que insistimos em querer não enxergar, residem sonhos, esperança, desejos, caráter, afeto e amor. São humanos iguais a nós, têm qualidades e defeitos como nós temos. O que então nos diferencia? Eles não tiveram/têm as mesmas condições e estrutura familiar que nós temos e o Estado infelizmente não está exercendo seu papel fundamental no sentido de prover condições de cidadania para essa população, com acesso pleno à saúde, à moradia, à alimentação adequada e ao trabalho. Isso é garantido pelas nossas leis e Constituição, porém na prática esses direitos lhes são roubados.


Ao contrário do que muitos pensam, essas pessoas não gostam de “morar” na rua, elas estão a todo momento em risco, risco de fome, frio, higiene precária, sem contar nas diversas formas de violências que sofrem diariamente. Estão a todo momento sob o risco de morte... Já imaginaram viver constantemente assim?


Solitários e anônimos se opõem e resistem à lógica repressora dessa sociedade capitalista e cada vez mais individualista, o chamado neoliberalismo.

Enquanto estamos aqui discutindo o lixo nas ruas e praças “dos cidadãos brancos, heteros, empregados, com comida na barriga” ficamos longe da principal discussão: a luta por uma sociedade justa, fraterna e igualitária.


O lixo é apenas a ponta do iceberg da questão, e enquanto for varrido para debaixo do tapete com políticas higienistas, pelas diversas esferas dos governos ou pelas instituições como determinadas igrejas, para não incomodar a população mais privilegiada da cidade seremos cúmplices das atrocidades que são cometidas diariamente contra esses seres humanos. O lixo que deve nos trazer preocupação não é aquele que vemos nas praças, esse é apenas consequência, mas sim o lixo que rege esse sistema, o lixo da injustiça, da crueldade, do abuso de poder, do descaso, do assistencialismo barato em troca de votos e de mais devotos. E esse lixo está em cada um de nós...


 
 
 

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